e ela acordou com o pé esquerdo. podia imaginar que aquele não seria um dos melhores dias… ela teve pesadelos, daqueles que você agradece quando vê que tudo não passou de um sonho.
quando se olhou no espelho, tinha os cabelos desgrenhados e as olheiras de sempre. os cabelo grisalhos começaram a aparecer e isso a assustava. o rosto tinha as marcas do lençol.
tomou coragem e um banho. enquanto a água cáia pelo seu corpo, mentalizou tudo que deveria fazer nessa quinta feira.
iludida, entrou no carro o ligou o som. esperava que a trilha, escolhida ao acaso, lhe desse alguma resposta. foi pelo caminho de sempre. aquela rotina a fazia sentir melhor. chegou no trabalho, e pela bagunça que estava, dava pra ver que tinha acontecido uma festa na noite anterior. e ela não foi convidada…
fez o que sempre fazia, sem uma vírgula a menos ou a mais. almoçou o de sempre, no restaurante de sempre, e o mesmo garçon fez o pedido.
toda essa rotina dava a confiança, que sabia ela, não tinha em si mesma. não tinha sido promovida. sua mesa era a mesma a 20 anos. todos na empresa a conheciam.
sua cor preferida era o bege. não fugia muito disso. o corte de cabelo. o mesmo. nunca mudava. tinha medo de não se reconhecer no espelho.
ela juntou o salário da vida toda, pra fazer aquela viagem.
tinha combinado de passar na agência depois do expediente, mas o trânsito a impediu. se atrasou, perdeu a hora e cancelou.
chegou em casa cansada, e resolveu ir até o bar da esquina comprar algo pra comer. escolheu, pagou e saiu de lá.
o celular tocou, e a chamada tirou toda a sua atenção. esperava há muito tempo ouvir aquilo tudo.
lentamente caminhou, cruzando o caminho de um carro, que ao contrário dela, estava bem rápido.
não se sabe o que ela pensou em seu último minuto, ou se teve tempo de se despedir.
só o que se sabe, é que a homenagem foi simples. a vestiram de bege, arrumaram os cabelos e poucos compareceram.
sua agente ainda a está aguardando, com o roteiro que segundo ela, seria dos sonhos.